terça-feira, 29 de novembro de 2011

A vida é sonho*





É certo; então reprimamos
esta fera condição,
esta fúria, esta ambição,
pois pode ser que sonhemos;
e o faremos, pois estamos
em mundo tão singular
que o viver é só sonhar
e a vida ao fim nos imponha
que o homem que vive, sonha
o que é, até despertar.

- Sonha o rei que é rei, e segue
com esse engano mandando,
resolvendo e governando.
E os aplausos que recebe,
Vazios, no vento escreve;
e em cinzas a sua sorte
a morte talha de um corte.
E há quem queira reinar
vendo que há de despertar
no negro sonho da morte?

- Sonha o rico sua riqueza
que trabalhos lhe oferece;
sonha o pobre que padece
sua miséria e pobreza;
sonha o que o triunfo preza,
sonha o que luta e pretende,
sonha o que agrava e ofende
e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
no entanto ninguém entende.

- Eu sonho que estou aqui
de correntes carregado
e sonhei que em outro estado
mais lisonjeiro me vi.
Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda a vida é sonho
e os sonhos, sonhos são.


* Monólogo de Segismundo, da peça “A vida é sonho” de Calderón de la Barca (1600-1681).

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Da obscura substância - parte II



Em um instante, e só por aquele instante, a “substância” esboçou um movimento que se assemelhou à respiração, ou mesmo a um espasmo pós-mortis. Isso significou alguma coisa. Ou não. Talvez estivesse viva, ou tenha vivido, mesmo que por instantes, mesmo que num tempo remoto. Quem sabe se aquele movimento fosse um esboço de vida? Ou uma  memória do tempo em que a vida existia, mesmo que por instantes?
Se os instante ainda existissem, ou pudessem ser rememorados, isso teria acontecido.
Antigamente, tempo e espaço eram duas coisas distintas, hoje não se sabe mais. Comecemos do início. Do início do fim.
Tudo começou quando ainda havia tempo e espaço, ou melhor, quando os dois eram coisas distintas, e o infinito espaço (hoje finito) ainda não havia se dobrado sobre si mesmo. A ciência passava por diversas transformações e por avanços inimagináveis. A capacidade de armazenamento de dados crescia incomparavelmente, de modo que se podia armazená-los em quase tudo. Bastava que se possuísse uma estrutura atômica compatível com a informação a ser armazenada. A única excessão eram os tecidos orgânicos, pois suas longas cadeias carbônicas eram muito bem resolvidas em sua própria estrutura, impedindo, com isso, a transferência de informações por meios tecnológicos. Os corpos orgânicos possuíam sua própria estrutura de armazenamento.
Escrevo essa carta à humanidade do passado no intuito de alertá-los para os perigos de alguns procedimentos, aparentemente inofensivos. As idéias parecem confusas pois a máquina capta os meus pensamentos e os tranforma em palavras, já não tenho a capacidade de fazê-lo sem seu auxílio. As capacidades, inatas para vocês, desapareceram com o tempo, à medida que a relação homem-máquina foi se tornando como que uma simbiose, melhor dizendo, parasitismo.
Não sei quanto tempo ainda tenho, pois esse já não existe mais.
Continuemos...

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Da obscura substância - parte I

Estava, ele ou ela (ou aquilo) no meio de algo que não é sólido nem líquido, e talvez, nem mesmo gasoso.
Talvez o que mantivesse na superfície fosse apenas uma misteriosa força, existente apenas no ponto de contato entre uma coisa e outra.
Talvez o que mantivesse na sensação da superfície fosse apenas uma misteriosa força, existente apenas no ponto de contato entre uma realidade e outra.
Talvez estivesse mergulhado nessa estranha substância, se é que disso pudesse ser chamada.
Há possibilidades, também, de que essa substância estivesse dentro ou mesmo isolada em outro sistema, de modo que só, do lado de fora, se observasse.
O que ocorria era o fenômeno da identificação. Por isso não sabia-se como separar uma coisa da outra, não havendo maneira de se aplicar o rigor científico.

domingo, 18 de setembro de 2011

O brilho nos olhos


O ator (eita ser estranho!)
Na ânsia de se ver em cena
Necessita de um espelho
Que forme à sua frente uma imagem
À semelhança de si.

E que espelho mais verdadeiro que o brilho dos olhos?
Que forma à sua frente um espelho d’água
Mais preciso que qualquer outro espelho.

E o ator, carente como é
Pode então se enxergar
E vai vivendo de olhar em olhar.

E o público, 
Se tranformando em artista,
Faz brilhar os olhos do ator
E não se sabe mais quem é ator
E quem não é.

Talvez seja essa a “missão” do ator em cena:
Despertar o brilho dos olhos
Para que seus olhos também brilhem
E como espelhos se refletindo frente à frente
Formem um infinito.

Que meus olhos possam fazer brilhar os teus
   E que os teus devolvam o brilho aos meus
   Para que mesmo quando se apague o refletor
   A cena continue iluminada.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Fábula

Queria colher a flor do campo,
Mas uma vaca chegou primeiro.

Moral da história: Quem sabe da próxima vez?

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

As Bruxas de Salém


Maiores informações: http://mandrioesdeteatro.blogspot.com

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Meio xadrez

Hoje eu acordei meio xadrez:

Ouvindo músicas,

Pensando na vida,

Meio desbocado até.


Cantando indecente

Cantigas profanas,

Olhando pra fora

Com pena de tudo.



Mundo penoso,

Derretendo,

Desmontando.


Meu café esfria na caneca ao meu lado

E uma voz de mulher sussurra ao meu ouvido:

“até onde posso ir pra te resgatar?”

No phone de ouvido.

A mesma mulher desbocada

que comeu a Madonna.


Me faz pensar: que mundo é esse?


Eu continuo xadrez,

Meio um,

Meio outro.


Gostando disso

E daquilo,

E daquilo outro ao meio reflexo,

O côncavo e o convexo.


Meio anjo,

Meio demônio,

Caminhando pela corda-bamba.

Tendo um olho no ontem

Outro no aqui e agora.


E o terceiro no futuro

Incerto.



Porém repleto de certezas

Certamente incertas

Como um jogo de dados.



terça-feira, 2 de agosto de 2011

Primeira tentativa para descrição do indescritível

Millôr Fernandes


A coisa inenarrável sucedeu num momento inimaginável. De tal modo era inadmissível em sua magnitude, imensidão, vasteza, enormidade, que posso garantir nunca se viu, conheceu ou ouviu falar de semelhante. Incrível, impensável, incalculável, formidável, formidanda, sobre-natural, irresrita, inaudita, fabulosa, de tal forma era inequívoca em sua excepcionalidade esdrúxula que a frase só podia ser uma: "Mirabile Visu!" Ficar boquiabertos, enleados, espantados, tolos de ver, desmandibulados ante aparência incontrolável, ingovernável, irreprimível, inertanciável, a plenitude, importância, grandeza e incredibilidade do visto era oa menos, pois que realmente transendia os limites, revestia proporções assombrosas, perdia-se de vista, completa, profunda, alta e assinalada. Era só o que se poderia fazer numa ocasião fantástica, transordinária, inapreciável, desmesurada, intermitável, tantíssima que o gigantesco era menos despropositado. Superlativar era dizer pouco, pois ímpar, díspar, enfim, estava ali demasiando-se, exaltando-se, ditirâmbica, incontrolável, ingovernável, inestancável, enextingüível, indisciplinável, causando espanto, estranheza, alarme e alarma, surpresa infrene, maravilha, atordoamento, estupefação, obstupefação, rapto dos sentidos, contemplação, embaçamento, estupor, sensação, pasmo, pasmo, pasmaceira, pasmatório, fascinação, fascínio, encantamento, entusiasmo, magia, deslumbramento, êxtase, admiração e os mais variados ecfonemas. Era a taumaturgia! Iam-nos os olhos em hipnose ante o que ra mais que o original e o inusitado, mais que o monstro, o prodígio, o portento, o fenômeno, o milagre, mais que o peixe-voador, o cisne-preto, o lépido-sereia, a avis-rara, mais que todas as sereias reunidas em convenção, mais que a salamandra, a fênix, a quimera, a hidra, o grifo, o minotauro, o centauro, o velocino, todos os pãs, todos os dragões, o notômelo e o sagitário.

Poderiam ainda surgir, sem que isso diminuísse uma partícula de partícula de partícula, um nicles patavina de sua fenomenalidade, todos os unicórnios, mas o mastoceronte; o ciclope, o iniódimo, a escalopendra, o epicéfalo, o comocéfalo, o cefalópode, o urômelo, o hipocampo, o onocentauro, o apósopo, o hipognato hipógrifo, o omacéfalo, que o poss arregalar, esbugalhar, boquiabrir, remirar, levantar de um salto, suspender a respiração, banzar, cair das nuvens, contemplar e embevecer não seriam menores, pois estaríamos diante da água e do vinho, comparando a sombra ao sol, o Nada ao Tudo. E poderiam ainda aparecer o montro sinadelfo, o pleuróssomo, o autosito, o dugongo, centenas de peixes fora d’água, milhares de caprichos da natureza, milhões de seres que não fossem nem uma coisa nem outra, inda sim nosso extasiar, enlevar, arrebatar, esfregar os olhos, embeber-se e entusiasmar-se seriam nada, zero, coisa nenhuma, nada sobre a terra, “nothing at all”, seriam nônada, fumo, tantito, tantico, coisa alguma, sombra de sombra do que vimos. Era tão nunca visto, excepcional, inaudito, esdrúxulo, proternatural, desnaturado, desmedido, descomedido, desusado, excêntrico, fora do comum, estrambótico, portentoso, raro, incomum, invulgar, inconcebível, inverossímil, sui generis, sem precedentes, sem exemplo, sem igual, sem paralelo, sem par, superior às forças da natureza, fora do usual, à exceção do mesmo, fora da craveira comum das leis eternas da Providência, que ficamos sem poder crês no que víamos, nem no que ouvíamos, nem no que sentíamos. Não sabíamos o que dizer, pois era surpreendente, surpresante, maravilhante, impressionante, espantoso. Mirificava, varava, infundia assombro, fazia pasmar, embasbacar, criava embaraço, abismava, eletrizava, alienava, encantava, hipnotizava, levava aos olhos, estonteava, aturdia, azabumbava. Falar era impossível. Só intejetivas:

“Será possível?”
“Santo Breve da Marca!”
“É de se tirar o chapéu””
“Santa Bárbara!”
“Olá!”
“Olé!”
“Onde se viu semelhante coisa!?”
“Céus!?”
“Cáspite!?”
“Sus!?”
“Caramba!”
“Com a breca!”
A coisa disse apenas: “Stupete, gentes!”
Em latim.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

sábado, 23 de julho de 2011

Labirinto

A todo momento nos perdemos pelos labirínticos caminhos cotidianos:

labirintos criados pela sociedade,

labirintos criados por nós próprios,

labirintos dentro de nós mesmos.

Para perder e encontrar o que somos.


O que somos?

Herói

Vilão

Ou Ariadne, tecelã de fios-guias?


Tudo que vive

se perde e se encontra

Ou apenas se perde...

Para se encontrar

é necessário estar perdido

Ou se fazer perder...


Todo labirinto vai dar no mesmo lugar

É necessário se perder para estar só

E consigo mesmo encontrar o caminho

Que vai dar sempre dentro de nós


É um caminho sem volta

Pois ultrapassado,

não é necessário ser novamente trilhado

Sou Eu,

transformado.


sexta-feira, 24 de junho de 2011

Preciso desaprender a ser isto


Isto que sou e me desgasta o ser

Preciso desaprender a sê-lo

Ou ser o mesmo ser de outra forma

Mas deixar de ser me dói o ser


Mudar é preciso

Mas preciso mudar o que é preciso

Precisamente


A necessária violência de acabar com possibilidades

E abrir outras... que não sei onde vai dar

Dúvidas, assombros, medos, reticências...

Ser e Estar


Por isso caminho de olhos baixos

E faço silêncio, reticências...


quinta-feira, 16 de junho de 2011

Divã Virtual: desabafos, suspiros e outras poéticas


Olhei pra você e vi o que seria um futuro ou, talvez, um pretérito mal resolvido, e me confundi entre um sentimento e outro. Eu sou mestre para fazer essas confusões, mas não para fazê-las confissões.

Tenho medo de falar...

Porque os sentimentos são grandes demais para serem expressos por palavras: a simples formulação de uma frase deixaria perdidos nos espaços vácuos, relances, suspiros e intenções. Estes, por sua vez, apenas podem ser captados se sentir meu coração e dele compartilhar as batidas inconstantes.

Preciso dizê-lo e não posso.

Tenho medo.

Esse é meu medo, meu ponto de desequilíbrio, meu erro de continuidade...

Meu suspiro que se desmancha pelo ar na ânsia de alçar vôo pra te alcançar...

Talvez seja apenas uma pequena obsessão

Disfarçada de ternura

(É mais fácil pensar assim)

Mas, mesmo que seja isso...


MEU CORAÇÃO ESTÁ ABERTO,


ENTRE SEM BATER!

quinta-feira, 2 de junho de 2011

CARISMA - Luís Fernando Veríssimo

O Líder Nato descobriu que tinha carisma quando, certo dia, no jardim da infância, notou que todos os outros copiavam a sua pintura de dedão. Na adolescência, queixou-se aos pais:

- Eu não quero ser um líder!

E os pais:

- Está bem, meu filho. Você é quem manda.

O Líder Nato não pode sair na rua que logo uma multidão se forma às suas costas e o segue por toda parte. Quando o Líder Nato levanta o braço para chamar um táxi, todo o trânsito para e fica aguardando suas ordens. O Líder Nato precisa andar de táxi, e escondido, porque na direção do seu carro criava engarrafamentos terríveis. Era seguido em cortejos intermináveis. Ônibus desviavam das suas rotas para segui-lo. O chefe do trânsito pediu a sua colaboração. Será que ele podia andar de táxi? De ônibus não, porque era só o Líder nato entrar num ônibus e o ônibus lotava. E havia briga na fila entre os que não conseguiam entrar. De táxi, por favor.

- Está bem, a partir de amanhã vou andar de táxi.

- Eu vou junto? – exclamou o chefe do trânsito, antes que pudesse se controlar.

Quem pode explicar o que é carisma? Quando o Líder Nato chega em casa, seus familiares vão correndo ajudar a fechar a porta, se não, a multidão entra atrás. Sempre passam uns dois ou três que seguem nos calcanhares do Líder Nato por dentro da casa, até no banheiro, até na cama, e só saem no dia seguinte. Atrás do Líder Nato. O Líder nato tenta ignorá-los, mas é difícil. Para onde quer que se vire, vê uma cara ansiosa sorridente, pronta a segui-lo até a morte.

Uma vez, o Líder Nato perdeu a paciência e começou a bater num baixinho que o seguia dia e noite. Quando viu, estava todo mundo batendo no baixinho. Outra vez o Líder Nato inventou de ir a Buenos Aires e aí o Brasil invadiu a Argentina.

O Líder Nato foi o mais votado nas últimas eleições, embora não fosse candidato a nada. Foi pedir proteção na Polícia Militar e o comandante mandou formar a tropa para a sua inspeção e insistiu tanto em lhe passar o comando que o Líder Nato desistiu e foi para casa. Correndo, pois toda a corporação vinha atrás. A sua lua-de-mel foi um acontecimento. O enfim sós...foi dito em coro pelos seus seguidores que lotavam o quarto do hotel. Uma multidão impaciente se aglomerava no corredor. A noite de núpcias do Líder Nato teve torcida organizada.

Volta e meia, o Líder nato é apresentado a estranhos homenzinhos verdes.

- Ele pediu para falar com o nosso líder...

O Líder Nato não sabe o que fazer. Se vai a um restaurante, o restaurante enche em seguida; os garçons não conseguem chegar até as mesas e o Líder Nato tem que sair. Com todo mundo atrás. Se vai a um cinema, a mesma coisa. Se fica em casa é obrigado, pelo clamor da multidão, a aparecer na sacada e lhes dirigir algumas palavras.

- Eu não quero ser um líder!

Vivas. Aplausos. Um verdadeiro líder deve ser modesto. Alguém grita:

- É só dar a ordem que nós estamos prontos!

- A ordem é: vão dormir e me deixem em paz!

Risadas. Aplausos. Um verdadeiro líder tem senso de humor.

O Líder Nato resolveu se queixar ao Papa. Ao Governo, não, pois seria constrangedora a deferência do Presidente diante do Líder Nato e na frente do pessoal do palácio. Voou para Roma. Não foi difícil conseguir uma audiência com o Papa. O carisma abria todas as portas. Frente a frente com o sumo pontífice, o Líder Nato finalmente preparou-se para desabafar.

- Vossa Eminência, eu... Por favor, Eminência, não fique de joelhos. Eminência, não precisa beijar o meu anel!

segunda-feira, 30 de maio de 2011

ALTERIDADE

Tenho motivos de sobra para chorar, no entanto sorrio.

Tenho motivos também pra gritar, mas me calo.

Será isso impulso sublime do espírito ou fraqueza da alma?


Não sei.


Tudo tem mais de um lado:

CORAGEM DE FUGIR também pode ser encarada como o MEDO DE FICAR.

MEDO DE MUDAR pode ser VONTADE DE PERMANECER.


Mas tudo isso é julgamento.

Como julgar se não sabemos o que se passa dentro do outro?

Podemos sim exercitar a ALTERIDADE, nos colocando como sendo o outro...

mesmo sendo impossível anular o que somos...

e também impossível desvendar o MISTÉRIO que o outro é...

Chegamos a um meio termo, que não sou eu, nem é o outro, mas um "mínimo múltiplo comum", ou coisa parecida...



Se alguém discorda, tudo bem, isso apenas nos mostra que existe um OUTRO LADO.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Sobre homens e bolhas de sabão


Bolhas de sabão encantam os olhos de crianças, jovens, adultos, idosos...

Acho que na verdade, na presença de bolhas de sabão, todos voltamos a ser crianças.

Bolhas de sabão são efêmeras...

A efemeridade também é uma característica do que é humano...

Tudo é, enquanto existe.

O que mais encanta na bolha de sabão é a sua característica de transparência: é possível ver tudo que está dentro e, por ser tão fina superfície, decompõe a luz do Sol, tornando-se multicolorida, ou melhor, iridescente.

Se os homens pudessem ter, moralmente, a espessura de uma bolha de sabão, talvez vivêssemos em um mundo melhor...

Ou melhor, se os homens tivessem o seu interior livre de toda mesquinharia e maldade, talvez, pudéssemos ser transparentes como bolhas de sabão...


Bolhas de sabão nos ensinam que:

interior = exterior

Ao romper-se a fina camada que os separa,

Não há dentro nem fora,

Há uma universalidade,

Atemporal.

(ou não)

terça-feira, 17 de maio de 2011

Eu Não Quero Voltar Sozinho - Curta Metragem

Olá, Perseguidores do Fabuloso Imaginário!

Assisti esse curta metragem e não pude deixar de colocá-lo aqui, ainda mais nesses tempos em que se fala tanto em homoafetividade. Não estou aqui levantando bandeira alguma, apenas divulgando um trabalho muito legal que encontrei em meus vôos rasantes pela rede mundial de computadores, também conhecida como internet. Como diria Diego Veloso: "Arte, puramente Arte!"





Eu Não Quero Voltar Sozinho

Sinopse: A vida de Leonardo, um adolescente cego, muda completamente com a chegada de um novo aluno em sua escola. Ao mesmo tempo, ele tem que lidar com os ciúmes da amiga Giovana e entender os sentimentos despertados pelo novo amigo Gabriel.

Elenco:
Ghilherme Lobo, Tess Amorim, Fabio Audi

Roteiro e Direção:
Daniel Ribeiro

Produção Executiva :
Diana Almeida

Fotografia:
Pierre de Kerchove

Direção de Arte:
Olivia Helena Sanches

Montagem:
Cristian Chinen

Edição de Som:
Daniel Turini e Simone Alves

Trilha Sonora:
Tatá Aeroplano e Juliano Polimeno

Produção de Elenco:
Alice Wolfenson e Danilo Gambini

http://www.lacunafilmes.com.br/sozinho

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Sentimento de não-pertencimento (entre parênteses)

Sabe quando você cansa de Londres e que mudar pra Paris?
Então... é isso!

Sentir-se não-pertencente.
E talvez seja apenas coisa da minha cabeça-ombro-joelho-e-pé,
A querência da mudança
interna mais que externa.
Meu sapato é muito pesado
E a vizinha, na sala, conversa com minha mãe.
Meu irmão brinca com o gato,
E eu ainda não tomei banho.
De cachoeira seria bom... mas não animo sair sozinho pro meio do mato.
Talvez eu seja por demais exagerado, apesar de tentar não sê-lo,
e toda essa teatralidade torne minha vida um pouco condensada (hum... com chocolate... quero brigadeiro...)

(e esse texto tá parecendo letra de música, traduzida com o tradutor do Google, não tá?)
Talvez seja o não-pertencimento...
Nem sei mais que escrever!

(na verdade ia escrever mais um texto da série "Sobre Homens", mas o não pertencimento msnizado com Diogo Machado foi mais forte e inspirador que falar sobre homens e coisas)

alguém entendeu esse texto? porque nem eu...

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Autopsicografia

Fernando Pessoa


O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Pensées Éparses #3


.
..
...


Fui proibido de dizer "não sei..." e aceitei o desafio.
Estou tentando...
Talvez isso traga alguma mudança,
Talvez um pouco de objetividade,
Ou apenas me tire do conforto.

Ou talvez eu apenas encontre outra maneira de fugir das respostas.
Mas, sinceramente, não é isso que quero!


...
..
.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Pensées Éparses #2

Hoje, no meu trajeto diário,
Resolvi respirar melhor
E olhar para dentro de mim


Descobri que:


Há tempos armei meu coração de escudos

e afiadas lanças apontadas para todos os lados...


Há tempos ando em círculos

Procurando aquilo que não perdi


Há tempo esqueci de mim mesmo

Num canto qualquer

Decidi
queimar todos os papéis velhos e amarelecidos

e tudo o que neles está impregnado...

Talvez a partir daí eu possa recomeçar,

Como o pássaro sagrado que renasce das próprias cinzas...



terça-feira, 22 de março de 2011

Da Busca

Faz tempo que queria escrever...

mas não sei o que acontecia...

talvez fosse necessário tirar umas férias...

e por mais que me esforçasse minha mente insistia em não funcionar...

estive até mesmo meio aéreo (digo, mais que o normal).


Talvez o tempo tenha condensado o sangue em minhas veias e a chuva enferrujado minhas articulações...

Talvez tenha ocorrido uma infiltração e meu coração esteja um pouco mofado...

Mas nada que água sanitária com amaciante (pra dar um cheirinho) não resolva.


Caminhei sobre as águas na direção contrária ao cais.

Distanciei-me tanto que mal podia avistar o farol...

Afastei-me das pequenas embarcações na busca tresloucada por mim mesmo...


Mesmo longe ele está ali... tão perto que não posso tocar

Apenas ondas nos permitem a comunicação

E quando posso... estou ocupado demais para lhe falar

(Para me falar)

Coisa que seja

Talvez seja melhor... não escute besteiras...


E tão perto e tão longe,

Que não me vêem,

Que não me escutam.

Esse turbilhão melancólico

Sem sentido, talvez...


Passaram-se segundos, minutos, horas, dias, meses, anos...


A Lua passou, dias atrás, no ponto mais próximo da órbita da Terra...

mas estava chovendo.


Não sei o que acontece...

mas alguma vem se modificando em mim...

espero que para melhor...


Meu coração aos poucos volta a bater...

minha respiração vai se modificando...

meu cérebro vai voltando à sua atividade normal...


Talvez seja o tempo chuvoso que anuviou meus olhos, minha boca, meu peito.


Aos poucos vou buscando aquilo que perdi (ou não) no turbilhão paranóico-multidirecional-tragi-cômico do meu pensar...


Talvez encontre comigo mesmo na esquina, espelho ou mesmo numa poça d’água...


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Pensées Éparses #1

Dentro de mim existe algo que ainda está por ser escrito

Mas antes é necessário criar novas palavras que consigam, com precisão, descrever, narrar, ou coisa parecida...

Enquanto isso, vou tentando me expressar com as palavras que existem...

Vou apenas existindo...

sábado, 29 de janeiro de 2011

Terra dos Homens - citação

Mais coisas sobre nós nos ensina a terra que todos os livros. Porque nos oferece resistência. Ao se medir com um obstáculo o homem aprende a se conhecer, para superá-lo, entretanto, ele precisa de ferramenta. Uma plaina, uma charrua. O camponês, em sua labuta, vai arrancando lentamente alguns segredos à natureza; e a verdade que ele obtém é universal. Assim o avião, ferramenta das linhas aéreas, envolve o homem em todos os velhos problemas.

Trago sempre nos olhos a imagem de minha primeira noite de vôo, na Argentina – uma noite escuraonde apenas cintilavam, como estrelas, pequenas luzes perdidas na planície.

Cada uma dessas luzes marcava, no oceano de escuridão, o milagre de uma consciência. Sob aquele teto alguém lia, ou meditava, ou fazia confidências. Naquela outra casa alguém sondava o espaço ou se consumia em cálculos sobre a nebulosa de Andrômeda. Mais além seria, talvez, hora do amor. De longe em longe brilhavam esses fogos no campo, como que pedindo sustento. Até os mais discretos: o do poeta, o do professor, o do carpinteiro. Mas entre esas estrelas vivas, tantas janelas fechadas, tantas estrelas extintas, tantos homens adormecidos...

É preciso a gente tentar se reunir. É preciso a gente fazer um esforço para se comunicar com algumas dessas luzes que brilham, de longe em longe, ao longo da planície.

(Antoine de Saint-Exupèry, no livro Terra dos Homens.)

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Um passarim


Um passsarim avuando sem rumo

sem direção.


De longe não enxerga muito,

mas seu coração pode sentir o brilho das estrelas.


Num vôo a mil por hora, a mil pensamentos por minuto,

se perde

e se encontra.


Talvez se ele tivesse um mapa ou uma bússola...

ele se perdesse e se encontrasse

do mesmo jeito.

E esse pasarim era eu

(tempos atrás).


Hoje enxergo ele avuando por perto de mim

de novo.


Todo dia escuto ele cantando perto da minha janela

e fico feliz de tê-lo por perto.


Decidi fazer uma casinha, bem pequenininha,

pra ele ficar quando vier me visitar.


Sei que ele não pode ficar por muito tempo

mas essa casinha é o meu coração.


Mesmo longe ele sempre estará aqui dentro

cantando...

E se ele chorar eu saberei.


Peço todo dia ao Universo

para que os ventos soprem a favor do passarim...


E que mesmo triste ele cante,

e no seu cantar se encante,

e em seu encanto se alegre,

e que sua alegria seja contagiante.


Por que se ele estiver alegre eu também saberei

E meu coração se alegrará

porque o passarim lá dentro está

então chorarei


de felicidade...

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Sobre homens, buracos negros e supernovas


Paro muitas vezes para pensar no Universo... e nesse pensar me desloco para muitos lugares, ondas sonoras atravessam os espaços entre os átomos que constituem meu corpo físico... vago pelos tratados de alquimia, magia, ciências, teologia... e mesmo, aparentemente, não chegando a lugar algum, penso. E, se Descartes estiver certo, existo.

Cada vez mais acredito que tudo que acontece ao nosso redor, e mesmo a distancias inimagináveis, de alguma forma também se passa dentro de nós. Como se o Universo dissesse muito a nosso respeito e, da mesma forma, se buscássemos dentro de nós, encontraríamos verdades sobre o Universo, seus buracos negros e supernovas. O trecho: “Assim na Terra como no Céu”, interpretado de uma outra maneira seria um perfeito tratado de Física, Química e Biologia, além de outras ciências e humanidades.

Quando penso que as relações que acontecem em escalas astronômicas, também acontecem com o átomo, acredito que somos pequenas personificações atômicas integrantes de um sistema maior e que talvez, dentro de mim outras personificações, menores ainda, se propõem os mesmos questionamentos...

Aquariano que sou não consigo ficar alheio a essas indagações. Mas não sou cientista, sou apenas um menino nu correndo tresloucado por um planeta rodopiante boiando no espaço sem fim.

De minha janela aberta vejo formigas, carros, trilhos, pássaros, aviões, foguetes, naves, estrelas, satélites, supernovas, asteróides...

E tudo está dentro de mim

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Sobre homens e ovos


Temos vida em nossas mãos


Vida frágil

Como um ovo

O que realmente importa

Está dentro

Ou não?


Cada um de nós é um universo

Em cada universo, uma realidade

Em cada realidade, uma dúvida


A cada dúvida, uma busca

A cada busca, uma perda

A cada perda, um encontro

A cada encontro, uma lágrima


Em cada lágrima, um suspiro

Em cada suspiro, expansão


A cada expansão, um abrir de olhos

Em cada olhar, imensidão

Na imensidão, o vazio

No vazio, possibilidades

Em cada possibilidade

Um sim

Um não



“A ave sai do ovo.O ovo é o mundo. Quem quiser nascer precisa destruir um mundo.”

Herman Hesse

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Dias de Chuva

Chove lá fora e eu aqui

Chove aqui dentro

Meu sangue forma gotas de chuva

Meu coração, um sol pulsante anuviado

Coração apertado

A alguns dias chove

A alguns dias me procuro

Tento me encontrar

Uma lágrima insiste em correr

Não sei porque

Talvez seja uma gota de chuva

Céu nublado

Cabeça parcialmente

Com tendência a trovoadas

Vontade de correr

Na chuva

Pra onde?